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Quinta-Feira, 04 de Dezembro de 2008

RNA: uma nova arma contra a esquistossomose

por: 
Saulo Amui

Unicamp transforma RNA em nova arma contra a esquistossomose

Técnica que usa molécula-irmã do DNA reduziu infecção do parasita da doença em cobaias.
Se funcionar, estratégia pode dispensar remédios tóxicos e pouco eficazes de hoje.

Uma das técnicas mais recentes e promissoras da biologia molecular pode dar um golpe certeiro numa velho problema de saúde pública: a esquistossomose. Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) usaram a interferência de RNA, uma forma simples e rápida de "desligar" genes, para atacar o parasita da doença em estudos com camundongos.

O resultado, embora preliminar, é animador: a técnica conseguiu diminuir em quase 30% a infecção pelo verme Schistosoma mansoni nos roedores. "As coisas andam muito rapidamente nessa área. É uma nova classe de drogas que agora podemos aplicar ao problema, e existem muitos caminhos para tentar melhorar esse desempenho", disse ao G1 Tiago Campos Pereira, pesquisador do Departamento de Genética Médica da Unicamp e um dos autores do estudo. O trabalho deve ser publicado numa edição futura da revista científica "Experimental Parasitology".

"A vantagem [de lidar com a interferência de RNA] é que estamos lidando com drogas cujo mecanismo de ação é conhecido, e que podem ser projetadas de forma racional. Não estamos mais trabalhando às cegas, por tentativa e erro, como muitas vezes acontecia com as drogas convencionais", acrescenta Iscia Lopes-Cendes, pesquisadora da Unicamp que também assina o estudo.

RNA intrometido

A interferência de RNA tem se mostrado tão promissora que seus descobridores, os americanos Andrew Fire e Craig Mello, ganharam o Nobel de medicina em 2006. Como o nome deixa claro, ela envolve a molécula de RNA, prima menos famosa -- mas não menos importante -- do DNA. O papel mais conhecido do RNA é transmitir para as células as instruções contidas no DNA, correspondentes à construção das proteínas necessárias ao organismo.

Cada proteína corresponde a uma seqüência específica de "letras" de DNA e RNA. Ora, o que a interferência de RNA faz é usar um pedaço dessas "palavras" protéicas para impedir que elas continuem a ser transcritas do DNA para o RNA. Dessa forma, a proteína não é produzida e o gene correspondente a ela fica, na prática, "desligado".

Os pesquisadores aplicaram esse conceito à esquistossomose, com o objetivo de "desligar" um gene essencial à saúde do verme S. mansoni. "Escolhemos a esquistossomose porque, entre outras coisas, havia um modelo animal da doença disponível aqui", explica Lopes-Cendes. Outro dos autores do trabalho, Luiz Augusto Magalhães, professor emérito da Unicamp, estuda a infecção parasitária há décadas -- período no qual ela nunca deixou de ser um flagelo da saúde em países pobres. Calcula-se que 200 milhões de pessoas sofram da doença no Brasil.

Como alvo inicial, os pesquisadores escolheram um gene que permite ao parasita "roubar" substâncias essenciais do sangue do hospedeiro. Sem a ação da proteína codificada por esse gene, o esquistossomo não consegue produzir seu próprio DNA. Para os testes, a equipe infectou camundongos com 100 larvas de S. mansoni e, 70 dias após a infecção, injetaram nos bichos os RNAs de interferência projetados para bloquear a ação do gene. Outros animais não foram tratados, para servir de controle.

Vitória parcial

Mais tarde, os roedores foram sacrificados para que fosse possível contar o número de vermes adultos em seu organismo. Assim, a equipe verificou que os camundongos que foram tratados com os RNAs sofreram uma infecção 30% menos severa que a de seus companheiros do grupo de controle.

"A gente deve testar outras moléculas para melhorar esse desempenho. Também é interessante pensar na elaboração de coquetéis -- quatro ou cinco genes diferentes sendo usados como alvo. Desse jeito, diminui o risco do aparecimento de resistência às substâncias entre os vermes", conta Pereira.

"Existem alguns pequenos ajustes com a molécula já usada que podem melhorar o desempenho dela", avalia Lopes-Cendes. A dosagem usada, por exemplo, é bastante baixa, e pode ser aumentada com razoável grau de segurança. Algumas mudanças na formulação também podem aumentar o tempo de circulação dos RNAs de interferência no organismo e, portanto, potencializar sua atividade.

"É importante acharmos essas alternativas porque os medicamentos disponíveis hoje para tratar a esquistossomose não são 100% eficazes e têm efeitos colaterais. Além disso, seu mecanismo de ação não é bem conhecido, e já existem vermes resistentes a eles", resume a pesquisadora da Unicamp.

O esquitossomo, verme causador da doença, em sua fase adulta.jpg
Fonte: 
Reinaldo José Lopes, do G1

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