Apenas um desabafo
Publicado em 22 Abril, 2008 - 09:56Por ocasião da “Audiência Publica” da Câmara Municipal de Sacramento, antes mesmo do início dos debates, fui abordado por alguns amigos que indagaram, como se tivesse alguma importância, minha opinião sobre o “sepultamento com asfalto” das pedras das ruas de Sacramento, aos quais a expressei com sinceridade, quando uma senhora, digna do meu maior respeito, observou que a mesma só poderia ser de um ignorante, no que ela deve estar coberta de razão.
Ao ser me dada pela vez primeira, nestes vinte e um anos de residência nesta cidade, a honra de ocupar a tribuna daquela Egrégia Casa de Leis, eu que não fui agraciado com “dom da oratória”, o fiz de improviso declamando um poema de minha autoria,no que fui taxado
de “decoreba”por alguns presentes. Um membro da “mesa”, ilustre edil, comentou, com ironia e desdém, após a minha fala: -É um poeta!
Na ata que registrou a Audiência, minhas palavras foram citadas, apenas como um desabafo.
“Se refletirmos, veremos que não somos poucos os ignorantes e poetas, para uma urbe que é colônia de uma elite minoritária, onde, ainda hoje, o trabalho do intelectual, longe de assegurar-lhe uma independência individual, e um título de mais reconhecimento
público, parece, ao contrário, desmerecê-lo e desviá-lo da liga dos homens positivos que, desdenhosos, dizem: “-É um poeta ! -sem distinguir se apenas é um trocista, um devaneador, ou um homem de gênio, como se dissessem: “-Eis aí um ocioso, um parasita, que não pertence a este nosso mundo. Deixai-o com a sua mania. Ignorai-o e ele se manterá em sua mesquinha posição!” E, pródigos em louvar e admirar os atos insanos, imediatistas, oportunistas eleitoreiros e perdulários dos detentores do poder, quão mesquinhos e ingratos se mostram, para com os que só querem o bem de sua cidade e o bem estar dos seus semelhantes.
Incompreendido, o poeta faz seus versos por mera inspiração, por essa necessidade de dar desafogo ao coração. A princípio, para honrar a beleza, a virtude, seus amores ou adormentar as amarguras da alma, mas logo que a idéia da cidadania aparece a alguns poetas, começam eles a invocá-la para objeto dos seus versos.
Sempre, porém, como uma voz clamando no meio do deserto, sem esperança de recompensa. O poeta não é guiado por nenhum interesse e só o amor à humanidade o inspira. Se, em quase total esquecimento, muitos deles existem, provém isto, em parte, da língua em que escrevem, que tão pouco conhecida por todos nós, é a nossa língua pátria.
Portanto, deixo aqui meu agradecimento aos que, presentes à Audiência Publica”, me permitiram mostrar meu “desabafo”e aos que, mesmo presentes,mas cegos defensores dos que estão no poder e, por inversão de valores, indiferentes aos interesses do povo , se fizeram ausentes àquele Ato Cívico Democrático.
(Leia tire cópias e redistribua. (Machado de Assis, genial orador, também agradecerá.)
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